O projeto de indie rock Godofredo, originário de Belo Horizonte, apresenta “Tutorial”, seu segundo álbum e o primeiro com a nova formação da banda.
Recordo-me de como era minha rotina ao ingressar na cena musical autoral de Belo Horizonte, por volta dos 17 ou 18 anos. Juntamente com meus amigos, explorávamos diversas apresentações. Algumas delas eram influenciadas por amizades; outras despertavam nosso interesse pelo som que era oferecido. Nesses momentos, testemunhei uma variedade de atitudes: havia aqueles que se levavam extremamente a sério, enquanto outros se entregavam à diversão da música, e alguns simplesmente subiam ao palco para exorcizar suas angústias.
Essas experiências me ajudaram a entender diferentes perspectivas sobre a música. Ao ouvir “Tutorial”, o recém-lançado álbum da Godofredo, fixo-me na conclusão de que a arte deve ser um espaço que nos revela como seres humanos.
Reconheço que existe beleza em produções muito polidas, em obras que apresentam a perfeição na sua essência. Entretanto, para mim, há um apelo especial na autenticidade e na coragem de expor a realidade de maneira nua e crua.
Nessa linha, o segundo disco da Godofredo é notável. Ele é minuciosamente produzido, mas ainda mantém uma sensação de humanidade, permitindo que o processo criativo, as brincadeiras e a diversão transpareçam de forma autêntica.
A Godofredo surgiu em 2019, formada por Vinicius Cabral e André Pádua, integrante da Paira. O grupo lançou seu disco de estreia, “Arquivos Vol. 3”, em 2020. A obra foi bem recebida pela crítica, mas logo após, a banda entrou em hiato devido à pandemia.
Em 2021, a banda reativou suas atividades, promovendo o primeiro álbum e criando novas composições com uma nova formação: Vinicius (vocais e guitarra), Camila Soares (vocais, baixo e teclados), Gabriel Elias (guitarras) e Rodrigo Piteco (baterias).
A nova combinação de membros é intrigante, com Vinicius e Rodrigo trazendo a bagagem de anos de atuação na cena indie de Belo Horizonte, enquanto Camila e Gabriel fazem suas primeiras incursões na música nesse cenário, resultando em uma rica diversidade de referências e temas no álbum.
“Tutorial” apresenta um conteúdo denso, reunindo 11 faixas em cerca de 40 minutos, que exploram um leque de sonoridades, timbres e vocais. O álbum é dinâmico, alternando entre momentos turbulentos e serenos, criando uma verdadeira jornada sonora.
O disco inicia com “Inferno”, um indie contagiante, que se destaca pelo riff cativante e pela introdução envolvente da voz. A letra parece suscitar reflexões, talvez uma alusão à obra de Rimbaud, e a linha “toda vez que eu me acabo em um palco eu sinto que eu não sei cantar” é acolhedora e profundamente humana, especialmente em tempos de aparências perfeitas nas redes sociais.
Na sequência, “Febre de março” traz experimentações sonoras com vocalizações e expressões que remetem ao choro, sugerindo reflexões sobre a paternidade de um recém-nascido, como um devaneio breve e avassalador.
O primeiro single do álbum, “Guarda Roupas”, revela-se uma balada indie excepcional, cativante ao ponto de fazer com que seu refrão grude na memória. Ao longo da canção, um som distorcido se apodera da melodia, encerrando apenas no riff finale.
“Filme da Varda”, o segundo single, surpreende ao introduzir bateria eletrônica e a voz de Camila Soares em um dueto com Vinicius. A letra está repleta de simbolismos e referências cinematográficas. Sua potência é evidente, especialmente quando o pré-refrão surge, cultivando tensão antes do ápice no refrão, e ambas “Guarda Roupas” e “Filme da Varda” possuem videoclipes disponíveis para apreciação.
A quinta e sexta faixas, “A Aventura Pts. 2 e 3” e “Amanhã pode ser assim”, alternam entre caos e tranquilidade, levando o ouvinte a um turbilhão sonoro, intercalado por momentos de pausa. A primeira é predominantemente instrumental, enquanto a segunda é uma canção completa, ambas incorporando trechos espontâneos da gravação, com conversas entre os membros, oferecendo um toque charmoso.
“Celina” flui como um rio, destacando a voz de Vinicius de maneira etérea antes de desaguar em “Imaginando Pequim”, outro destaque da resistência indie do álbum. A forma de interpretação de Vinicius lembra, de certa maneira, Flávio Venturini e os vocais da banda 14Bis.
Chegamos a “No Bar do Flamengo”, que traz de volta o dueto entre Camila e Vinicius, concluindo com risadas gostosas, e culmina com “O Triste Fim da Água”, uma canção que insinua influência da french wave mesclada ao indie. O álbum termina com uma conversa descontraída entre três membros no dia da última gravação, criando uma atmosfera amigável.
No geral, aprecio os vocais de Vinicius, a bateria firme de Rodrigo, o baixo marcante de Camila (e seus duetos com Vinicius) e as guitarras vibrantes de Elias. Esta formação exala uma sinergia que é palpável, sugerindo que a gravação foi uma experiência prazerosa, o que talvez explique a diversão que proporciona ao ouvinte.
Um álbum que realmente serve como um guia sobre como criar música com autenticidade e emoção.
Ouça “Tutorial” nas plataformas de streaming disponíveis!
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Tempo de Leitura do texto: 2,3 minutos de leitura
Publicado em: 2025-07-10 11:08:00
Autor: Hits Perdidos
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