Em um dos trechos da canção “Eu Também Vou Reclamar”, escrita por Raul Seixas e Paulo Coelho e parte do álbum “Há 10 Mil Anos Atrás”, há uma linha que diz: “Entro com a garrafa de bebida enrustida / porque minha mulher não pode ver”. Esta letra retrata uma das estratégias de Raul para ocultar seu alcoolismo, uma condição crônica que, de acordo com dados do Ministério da Saúde, afeta 20,8% da população do Brasil, o que equivale a cerca de 43,9 milhões de indivíduos.
Na época, Glória Vaquer, sua esposa, tentava lidar com a situação, chegando a dificultar o acesso de Raul ao dinheiro. Essa tática, no entanto, não foi eficaz, pois ele frequentemente pedia créditos em bares e restaurantes nas redondezas.
Recentemente, no dia 28 passado, Raul Santos Seixas faria 80 anos. Embora não esteja entre nós, a efeméride foi celebrada através de um livro, uma série e uma exposição.
No livro “Eu Sou Eu Fui Eu Vou – Uma Biografia de Raul Seixas”, escrito por Rogério Medeiros, a narrativa menciona um episódio em que Raul convidou seu irmão Plínio para jantar em um restaurante no Rio de Janeiro, onde residia. Durante a refeição, Raul se ausentava repetidamente para ir ao banheiro, levantando a curiosidade de Plínio, que decidiu segui-lo. No local, ele descobriu que Raul havia solicitado a um garçom que deixasse uma dose dupla de vodca ali. Sem hesitar, Plínio pegou o copo e consumiu o conteúdo, levando Raul a sorrir timidamente ao ser flagrado.
Em 31 de setembro de 1987, o cantor expressou seu desespero em relação a sua condição durante uma internação na Vila Serena, uma clínica de reabilitação em São Paulo: “Nunca me senti tão mal”.
Raul Seixas teve cinco casamentos, incluindo os com Edith Wisner, Glória Vaquer, Tânia Menna Barreto, Ângela Costa e Lena Coutinho. Duas dessas esposas publicaram livros que relatam suas experiências ao lado do ícone musical.
Em “Pagando Brabo – Raul Seixas na Minha Vida de Amor e Loucuras”, Tânia Menna Barreto narra que a primeira atividade de Raul ao acordar era sempre solicitar bebidas alcoólicas ao serviço de quarto, afirmando que Bourbon Four Roses e Jack Daniels eram seus preferidos. “Esse era o seu café da manhã”, ela conta.
Ela também menciona que alguns empresários exploravam a vulnerabilidade de Raul, pagando seus cachês com bebidas em vez de dinheiro. Em uma situação crítica, minutos antes de um show em Fortaleza, ele sofreu uma crise severa de hepatite, chegando a desmaiar no palco e necessitando de atendimento médico imediato.
Quando questionada sobre como estaria Raul hoje, aos 80 anos, Tânia foi categórica: “Ele não teria sobrevivido por muito tempo”. Ciente de seu quadro de diabetes e hipertensão, Raul faleceu em 1989.
Em “Coisas do Coração – Minha História com Raul”, Kika Seixas narra que, entre 1979 e 1984, ele foi internado diversas vezes, inclusive para uma cirurgia no pâncreas. A caçula das três filhas, DJ Vivi Seixas, relembra que, ao tentar inscrevê-lo em uma academia, ele rapidamente abandonou a ideia para se desviar em direção à lanchonete, onde preferia consumir cerveja.
Ao descobrir a verdade, Kika implementou regras rigorosas em casa, inclusive a proibição de bebidas, mas Raul se esquivava, chegando a ingestão de álcool que ele mesmo escondia. Sua luta contra o vício era constante, mas, segundo Kika, resultava em pouco progresso.
Sylvio Passos, que fundou o fã-clube Raul Rock Club, teve um relacionamento íntimo com o artista entre 1981 e 1989. Ele doou mais de cem itens para a exposição Baú do Raul, atualmente em exibição no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Passos, que se considerava um filho espiritual de Raul, lamenta que tanto seu pai biológico quanto Raul morreram por conta do mesmo vício.
Raul Seixas faleceu em 21 de agosto de 1989, e o seu atestado de óbito descreve pancreatite crônica, hipoglicemia e parada cardiorrespiratória. O médico Luciano Stancka, que o assistiu em seus momentos finais, alerta que não existem limites seguros para o consumo de álcool, enfatizando que a melhor opção é a abstinência total. Ele ressalta que a dependência não deve ser romantizada, especialmente na esfera artística, pois o alkoholismo, embora tratável, não conheça cura, apenas controle.
Estima-se que, apenas em 2022, 21,3 mil brasileiros perderam suas vidas em decorrência do alcoolismo, um dado alarmante que corresponde a duas fatalidades a cada 60 minutos. Para aqueles que buscam ajuda, organizações como os Alcoólicos Anônimos oferecem suporte gratuito.
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Tempo de Leitura do texto: 14 minutos de leitura
Publicado em: 2025-07-11 07:00:00
Autor: Veja Saúde
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