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Disco ‘Malucão’ de Donato: Uma Joia Musical Inédita Após 40 Anos

Em novembro de 1977, o jornalista Nelson Motta trouxe ao público a novidade da gravação de um álbum triplo de João Donato em sua coluna no Jornal O Globo. As gravações, que ocorreram de maneira experimental entre setembro e outubro do mesmo ano, foram finalizadas com sessões adicionais em julho de 1978. No entanto, o disco acabou sendo arquivado por Donato, que não se sentiu satisfeito com o resultado.

A decisão de abandonar o projeto deveu-se à percepção de que o álbum era considerado “maluco” em um contexto musical em que tanto o público quanto os executivos das gravadoras preferiam as composições mais acessíveis do artista, que contavam com letras de renomados compositores como Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Quarenta anos depois, o álbum até então inédito reaparece parcialmente na caixa intitulada A mad João Donato, lançada em março de 2018 pelo selo Discobertas. Essa coletânea inclui edições em CD de outros dois álbuns inéditos do artista, além de uma seleção de gravações raras.

Chamada de Gozando a existência, essa primeira edição oficial do álbum, que anteriormente também era referida como Prossiga, apresenta-se como um disco simples, revelando a riqueza musical contida nas nove faixas que foram recuperadas pelo pesquisador Marcelo Fróes, que começou a explorar o acervo de Donato em 2014. O som, embora tecnicamente desbotado, ganha vida através do valor histórico que a edição oferece.

Diferente do que normalmente caracteriza a obra de Donato, Gozando a existência se destaca como um álbum de intérprete, com apenas uma composição de sua autoria, que é a faixa-título. Neste registro, a canção é interpretada por Alaíde Costa e é reconhecida como o único momento verdadeiramente experimental do álbum, com uma duração de 11 minutos e 23 segundos, sendo que a gravação completa chega a 26 minutos.

Ainda que o disco possua um caráter coletivo, já que foi gravado com a participação de diversos músicos e vocalistas que não foram creditados devido à ausência de ficha técnica, a influência de Donato é inconfundível. Isso se reflete tanto em Praia, uma composição sem letra com melodia conduzida pelos vocalizes de Donato, quanto no tema instrumental Zra Zra, que inicia o disco.

Por outro lado, a interpretação de José Amin (cunhado de Donato) em Acalanto para enganar Regina, de Lysias Enio e Esdras Silva, destaca-se por sua distância em relação à modernidade e à leveza que caracterizam a música de Donato desde os anos 50.

Não se pode afirmar que o álbum contenha elementos insanos; na verdade, ele expressa uma liberdade musical que culmina em uma jam session no encerramento da faixa Canto da Lira, que conta com a voz de Djavan. Esta canção seria posteriormente gravada por Wanderléa em 1978 e registrada oficialmente por Djavan apenas seis anos depois em seu álbum Lilás (1984).

Canto da Lira também sugere a conexão de Donato com as músicas nordestinas, algo natural considerando que seu início na música se deu através do acordeão, antes de se consagrar como um pianista e compositor com forte influência latina. Surpreendentes são as ligações que o artista estabelece com o repertório de autores associados ao Clube da Esquina de Minas Gerais.

O álbum Gozando a existência inclui composições que seriam lançadas por Milton Nascimento em Club da Esquina 2 (1978), Testamento (de Nelson Angelo e Milton Nascimento, 1978) e Toshiro (de Novelli), além de Olho d’água (Paulo Jobim e Ronaldo Bastos), que estava previsto para o projeto abandonado de Donato. O repertório é complementado pela canção instrumental Fibra (Eloir de Moraes e Paulo Moura).

Assim, mesmo que o título da coletânea A mad João Donato faça uma brincadeira com a reputação do álbum original, remetendo ao álbum A bad Donato (1970), a verdadeira insanidade é não reconhecer a lógica única que permeia a música deste artista.

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Tempo de Leitura do texto: 7.2 minutos de leitura

Publicado em: 2018-03-28 12:04:00

Autor: g1

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