quarta-feira, junho 3, 2026
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Quando a leitura abre celas: o teatro que liberta dentro do cárcere

Em espaços privados de liberdade no estado do Rio de Janeiro, iniciativas culturais como o Jurisdrama vêm se consolidando como caminhos possíveis para a ressocialização de detentos. Ao unir remissão de pena por leitura, teatro, escuta e reflexão crítica, o projeto transforma o espaço prisional em território de reconstrução subjetiva, reconhecimento e cidadania.

Leitura que encurta penas e amplia horizontes

A leitura no cárcere já é reconhecida como direito e instrumento de redução de pena. Por meio dela, internos podem encurtar suas sentenças e, ao mesmo tempo, abrir novas janelas de pensamento, autoestima e senso de pertencimento. A cada livro lido e resenhado, uma chance real de reconstrução simbólica e prática.

Mas o impacto vai além do número de dias remidos. O que se vê são trajetórias transformadas pelo contato com a palavra, com a linguagem, com a escuta, e com o outro.

Professor Fábio Samu
Professor Fábio Samu, Coordenador Geral do Projeto Jurisdrama

Jurisdrama: quando a leitura sobe ao palco

Criado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado do Rio de Janeiro (SEAP-RJ), o Jurisdrama combina oficinas de leitura crítica com rodas de resenha e experiências teatrais. Os participantes não apenas leem, mas interpretam, dramatizam, escrevem e refletem coletivamente sobre os textos e sobre suas próprias histórias.

O projeto é coordenado pelo professor Fábio Samu, que há mais de 20 anos atua com formação cultural em diferentes unidades prisionais do estado. Recentemente, Samu lançou um livro que reúne reflexões e relatos construídos ao longo dessas duas décadas de trabalho com pessoas privadas de liberdade.

O Jurisdrama é mais do que uma oficina. É um gesto político de escuta e de reconhecimento. Quando um detento escreve sobre um livro, ou encena um trecho que o tocou, ele se inscreve no mundo como sujeito pensante e sensível. Isso, por si só, é um ato de liberdade, afirma Fábio Samu.

Alunos do Projeto Jurisdrama UFRJ
Alunos do Projeto Jurisdrama UFRJ

O Instituto Pro Bono Brasil e a justiça restaurativa

O Instituto Pro Bono Brasil é um dos principais realizadores do projeto e contribui diretamente para sua consolidação e expansão. Ao lado da UFRJ, o Instituto articula recursos, redes de apoio, mediação com o poder público e estratégias de fortalecimento institucional, garantindo que o projeto permaneça vivo, efetivo e reconhecido.

Mais do que apoiar, o Pro Bono Brasil faz junto: acompanha as oficinas, estimula a produção artística dos internos, viabiliza exibições públicas dos resultados e ajuda a ampliar o debate sobre cultura, cárcere e justiça restaurativa.

Ressocialização como construção coletiva

Os impactos do Jurisdrama são visíveis: internos que participam passam a ler mais, escrever com mais fluência, se expressar com mais clareza e, principalmente, reconhecer seu valor como sujeitos de direitos e de criação. A arte aparece como um meio legítimo de construção de novas narrativas, onde a punição dá lugar ao diálogo.

A remissão de pena pela leitura não é apenas um benefício legal. É, sobretudo, uma ferramenta pedagógica de reumanização. Um ato de confiança na potência da palavra como instrumento de mudança.

Cultura como liberdade em processo

Iniciativas como o Jurisdrama mostram que educação, cultura e arte podem ocupar o cárcere não como concessão, mas como reparação. Cada livro lido, cada cena encenada, cada texto escrito por alguém que cumpre pena é um exercício de reconstrução pessoal e social.

No Brasil de hoje, pensar em políticas públicas para a população carcerária é, também, pensar em caminhos que evitem o retorno ao crime, ampliem oportunidades e restabeleçam vínculos com a sociedade. O Jurisdrama representa exatamente isso: uma aposta corajosa na segunda chance.

A potência do Jurisdrama agora também em livro

A última conquista do projeto foi o lançamento do livro do professor Fábio Samu, coordenador do Jurisdrama, que reúne reflexões e experiências acumuladas ao longo de mais de 20 anos de atuação em unidades prisionais do estado do Rio de Janeiro. A obra se debruça sobre a formação do Comando Vermelho e contesta a versão mais difundida de que o grupo teria surgido a partir da convivência entre presos políticos e assaltantes de banco. Com base em escuta direta, pesquisa empírica e vivência nos bastidores do sistema penal, o livro propõe uma nova leitura sobre as origens do crime organizado no Brasil. Mais do que uma publicação acadêmica, é um registro vivo das contradições, silêncios e reinvenções que atravessam o cárcere. É também a prova de que, quando há espaço para a cultura, até os muros mais altos se tornam permeáveis à compreensão.

Professora Ana Ivenicki e Daniel Gil no lançamento do livro.

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CONTEÚDO REFERENCIADO:

Tempo de Leitura do texto: 1.8 minutos de leitura. Publicado em: 2025-03-21 11:16:00. Autor: Pro Bono Brasil. Sobre as fontes: Este conteúdo foi desenvolvido com base em informações de fontes confiáveis, colaborações institucionais e bases de dados reconhecidas. Reafirmamos nosso compromisso com a divulgação responsável de informações de interesse público. Para saber mais sobre esta matéria, acesse Pro Bono Brasil . Aproveite e acesse outras histórias e conteúdos inspiradores na página oficial.

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