“É um espetáculo carioca, viva a cidade maravilhosa!”, exclamou Zé Renato ao se apresentar no Teatro Riachuelo, no coração do Rio de Janeiro (RJ), logo após interpretar o famoso samba “Diz que fui por aí” (Zé Kétti e Hortênsio Rocha, 1964). A apresentação, intitulada “Bebedouro”, trouxe uma paleta musical rica em sons e ritmos, refletindo a trajetória deste artista capixaba, que se considera um carioca de coração devido à sua vasta vivência musical na cidade.
Com uma performance impecável, Zé Renato fechou a noite de ontem, 3 de abril, com “A voz do morro” (Zé Kétti, 1955). Acompanhado de João Cavalcanti e uma talentosa equipe de seis músicos, conseguiu criar uma energia viva, evocando a sonoridade de uma big band, enquanto se revezava entre violão e guitarra eletroacústica.
O repertório do espetáculo destacou as nuances cariocas, enriquecendo as faixas do recém-lançado álbum “Bebedouro”, que chegou ao público em janeiro de 2018. A seleção musical traçou um arco que começou com o samba-rock “Agogô” (Zé Renato e Moacyr Luz, 2018), e foi navegando pela bossa nova intemporal de autores como Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, sendo este último representado por “O amor em paz” (1960), uma verdadeira joia da música brasileira.
O samba se entrelaçou com estilos mais intimistas, evidenciado no arranjo do pianista Cristovão Bastos para “Diz que fui por aí”. Chamando atenção pelo seu aspecto geográfico, o samba “Sacopenapan” (2018) passeou por locais emblemáticos como Copacabana e Humaitá, refletindo as experiências urbanas vivenciadas por Zé Renato e Joyce Moreno, os dois autores do tema, que também colaboraram em “Noite” (2018), onde um arranjo exuberante ressaltou a harmonia de um trio de metais.
Sem deixar de lado a riqueza do evento, Zé Renato incorporou no show composições do renomado Edu Lobo, trazendo de volta “Uma vez, um caso” (Edu Lobo e Cacaso, 1976) após uma menção a “Repente” (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1976). O repertório ainda perpassou a música de Egberto Gismonti, com a interpretação tocante de “Ano zero” (Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro, 1972) e sua versão de “Carinhosa” (2017), onde se desfez de interpretações menos favorecidas anteriores, mostrando seu talento em “Dentro de mim mora um anjo” (Sueli Costa e Cacaso, 1975) e “Toada (Na direção do dia)” (Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho, 1978).
Embora “Carinhosa” pudesse soar como uma escolha fácil para agradar o público, sua nova abordagem, marcada pelo toque sofisticado de um trompete, elevou essa música a um dos momentos mais memoráveis da apresentação, que se desenrolou harmoniosamente. Ao longo do show, a ousadia de Zé ao interpretar “Tua cantiga” (Chico Buarque, 2017) apenas com o piano de Cristovão Bastos foi notável, proporcionando um momento intimista e autêntico.
A fluidez esteve presente durante todo o espetáculo, seja na simplicidade leve de “Vamos curtir o amor” (2018), parceria com Moraes Moreira, ou na profundidade de “Samba e nada mais”, uma harmoniosa colaboração com João Cavalcanti que se estendeu para “Mulato” (João Cavalcanti, 2012). O conjunto ganhou vida com a presença de músicos como o baixista Jamil Joanes e o saxofonista Zé Nogueira, que, em uma apresentação instrumental, trouxeram à tona “Amphibious” (Moacir Santos, 1974), solidificando ainda mais a grande fase de Zé Renato como artista.
Segue abaixo o repertório da estreia do show “Bebedouro” em 3 de abril de 2018:
1. Agogô (Zé Renato e Moacyr Luz, 2018)
2. Sacopenapan (Zé Renato e Joyce Moreno, 2018)
3. Noite (Zé Renato e Joyce Moreno, 2018)
4. Ano zero (Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro, 1972)
5. Repente (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1976)
6. Uma vez, um caso (Edu Lobo e Cacaso, 1976)
7. Carinhosa (Zé Renato e Otto, 2017)
8. Vamos curtir o amor (Zé Renato e Moraes Moreira, 2018)
9. Agora e sempre (Zé Renato e José Carlos Capinam, 2018)
10. Diz que fui por aí (Zé Kétti e Hortênsio Rocha, 1964)
11. Samba e nada (Zé Renato e João Cavalcanti, 2018) – com João Cavalcanti
12. Mulato (João Cavalcanti, 2012) – com João Cavalcanti
13. Dentro de mim mora um anjo (Sueli Costa e Cacaso, 1975)
14. Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho, 1978)
15. O amor em paz (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960)
16. Tua cantiga (Cristovão Bastos e Chico Buarque, 2017)
17. Amphibious (Moacir Santos, 1974) – número instrumental da banda
18. Navegantes (Zé Renato e Nei Lopes, 2018)
19. Ânima (Zé Renato e Milton Nascimento, 1982)
20. Pedra de mar (Zé Renato e Paulo César Pinheiro, 2018)
21. Fonte de rei (Zé Renato e Paulo César Pinheiro, 2018)
22. Agogô (Zé Renato e Moacyr Luz, 2018)
23. A voz do morro (Zé Kétti, 1965) – com João Cavalcanti
Bis:
24. Noite (Zé Renato e Joyce Moreno, 2018) – com João Cavalcanti
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Tempo de Leitura do texto: 8.6 minutos de leitura
Publicado em: 2018-04-04 15:25:00
Autor: g1
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