quarta-feira, setembro 9, 2026
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Os Impactos da Leitura no Cérebro: Transformações e Benefícios

Quando você se dedica a ler este artigo, seu cérebro ativa processos que foram moldados ao longo de milênios pelos humanos: a habilidade de leitura.

A capacidade de interpretar letras e símbolos transformou tanto a nossa mente quanto a sociedade, estabelecendo um elemento inexistente na época de nosso surgimento.

Maryanne Wolf, cientista cognitiva e professora na Universidade da Califórnia em Los Angeles, expressa em uma entrevista à BBC News Brasil que a linguagem é frequentemente percebida como algo natural, mas a escrita não é dessa mesma forma.

“Conforme lemos mais, esse sistema vai moldando o cérebro de forma cumulativa. Ele adquire um enorme conhecimento e desenvolve uma prática que eu denomino leitura profunda.”

Contudo, Wolf alerta que essa capacidade de leitura profunda enfrenta riscos devido aos novos hábitos digitais, como a tendência de apenas “escanear” textos online.

A seguir, discutiremos quatro maneiras pelas quais a leitura moldou nosso pensamento e abordaremos maneiras de preservar essas habilidades.

1 – A ‘criação’ da leitura

Segundo Maryanne Wolf, o cérebro humano típico é pré-configurado com circuitos que permitem a visão e a produção de sons, mas não inclui um circuito específico para a leitura.

Acredita-se que a história da escrita tenha começado por volta de 3300 a.C., com os sumérios na região da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque. Eles desenvolveram o sistema cuneiforme, embora haja divergências sobre se os egípcios com seus hieróglifos não foram os primeiros.

Independentemente da origem, a decodificação de símbolos passou a demandar mais do que a mera visão; era necessário conectar cada símbolo a um objeto ou ideia e também a sons.

“Os símbolos escritos começaram a aparecer há cerca de 6 mil anos, exigindo do cérebro uma transformação, onde um símbolo visual passou a simbolizar um conceito expresso por meio da linguagem”, observa a pesquisadora.

Wolf menciona que os cientistas acreditam que circuitos anteriormente usados para o reconhecimento de objetos foram “reciclados” para a leitura.

Em 1989, pesquisadores estudaram a atividade cerebral de indivíduos observando uma variedade de caracteres, alguns significativos e outros aleatórios.

Notou-se que ao olhar para palavras cuja interpretação possuía significado efetivo, um maior número de áreas visuais se ativava, assim como células específicas voltadas ao processamento de letras, palavras e sons.

Uma única palavra pode evocar um amplo conjunto de conceitos na mente.

Wolf relata um experimento conduzido pelo cientista cognitivo David Swinney, onde os participantes que lêem a palavra “bug” não se limitam ao significado básico de um inseto, mas também se associam a “bugs” em informáticas e ao carro Fusca, que é denominado “Beetle” em inglês.

2 – O impacto dos idiomas nas áreas cerebrais

Wolf também observa que diferentes idiomas impactam o cérebro de maneiras distintas.

O chinês, um dos idiomas mais antigos, é um exemplo, utilizando um sistema logográfico onde cada conceito é representado por um símbolo individual, ao contrário de um alfabeto.

Estudos demonstram que aprender sistemas logográficos ativa áreas do cérebro diferentes das ativadas pelo aprendizado de línguas como o português ou o inglês, especialmente nas regiões relacionadas à memória e à associação visual.

Uma pesquisa seminal sobre bilinguismo realizada nos anos 30 revelou um caso em que um homem afetado por um derrame teve suas habilidades de leitura em chinês comprometidas, enquanto seu conhecimento em inglês permaneceu intacto.

“Este é um exemplo claro das exigências únicas apresentadas pelo chinês, que requer mais memória e processamento visual dos complexos símbolos”, destaca Maryanne Wolf.

3 – O acúmulo de repertórios desde a infância

O aprendizado avançado começa antes mesmo da alfabetização formal: bebês que escutam histórias no colo de adultas ou veem livros ilustrados iniciam um processo crucial de aprendizado, mesmo sem saber decifrar letras.

De acordo com Wolf, essa interação inicial é fundamental para o desenvolvimento de habilidades emocionais, como a empatia e a capacidade de se relacionar com personagens.

Por outro lado, a falta de estímulos de leitura tem efeitos negativos sobre o desenvolvimento infantil.

Um estudo relevante realizado nos EUA em 1995 concluiu que crianças de ambientes empobrecidos, que não tiveram acesso à leitura, ouviram 30 milhões de palavras a menos que as crianças de classe média até os 3 anos.

Embora pesquisas mais recentes questionem a simplicidade desse resultado e a sua relação com o nível socioeconômico, o fato de que uma criança com menos repertório pode iniciar sua jornada acadêmica em desvantagem continua verdadeiro.

4 – A perda da capacidade de leitura profunda

A pesquisadora expressa sua preocupação com o que denomina “crise da leitura”.

O aprendizado da leitura é uma habilidade desenvolvida ao longo do tempo e não algo intrínseco; assim, segundo Wolf, existe a possibilidade de que essas habilidades sejam gradualmente perdidas.

Ao considerar a maneira como muitos leem em telas de celulares hoje em dia, é comum que esse ato se resuma a uma rápida olhada, interrompida constantemente por notificações.

O problema, conforme ressaltado por Wolf, é que essa leitura superficial compromete a capacidade de mergulhar em textos, de compreender argumentos complexos e de identificar informações falsas.

“Apenas escanear um texto resulta em uma retenção superficial do conteúdo”, explica. “Com isso, não apenas dados são negligenciados, mas também o sentido e a beleza que o autor tenta transmitir.”

Wolf menciona estudos que sugere que o uso precoce de smartphones pode levar a um desempenho acadêmico insatisfatório.

Além disso, “em um cérebro constantemente distraído, a necessidade de estímulos se torna cada vez mais imediata, o que faz com que essas crianças fiquem entediadas quando offline.”

A consequência disso é a escassez de tempo para leituras prazerosas, “resultado que impede muitas crianças e adolescentes de desenvolverem a leitura profunda.”

“A solução mais eficaz é simples e bela: imergir as crianças em livros, proporcionando uma experiência de leitor. Mostrar a elas que a leitura pode ser um espaço de reflexão pessoal”, conclui Wolf.

“No entanto, essa solução exige esforço dos pais e educadores, que precisam ser modelos, lerem para as crianças e cultivarem também o prazer pela leitura.”

Dificuldades de leitura e dislexia

Um tema relevante é o número significativo de crianças que enfrentam desafios na leitura, como a dislexia, que afeta de 4% a 10% da população global, de acordo com diferentes estimativas.

Essa condição acarreta dificuldades em aprender a ler e escrever. Crianças disléxicas frequentemente lutam para discernir sons e fonemas nas palavras e também para recordar informações ao lê-las ou ouvi-las.

Maryanne Wolf, mãe de um filho com dislexia e diretora de um centro de estudos sobre a condição na Universidade da Califórnia, lamenta que crianças com essa dificuldade sejam frequentemente vistas como incapazes ou desinteressadas, ao invés de diagnosticadas e amparadas.

“Em qualquer parte do mundo, a narrativa da dislexia poderia ser a mesma”, afirma Wolf em O Cérebro Leitor.

“Imagine um menino inteligente que começa a escola cheio de ânimo e se esforça para aprender a ler, mas, ao contrário dos demais, enfrenta dificuldades; seus pais pedem mais dedicação, e os professores o acusam de não dar o seu melhor; outros alunos podem até chamá-lo de ‘idiota’; ele absorve a mensagem de não ter valor; assim, ao final, essa criança deixa a escola desprovida de qualquer entusiasmo.”

Wolf explora várias teorias sobre a dislexia em seu livro, incluindo a possibilidade de falhas nas estruturas de linguagem ou de visão do cérebro, e também a ideia de que pessoas disléxicas utilizam circuitos cerebrais que diferem dos de leitores convencionais.

“Ainda temos um vasto caminho a trilhar na compreensão e nos mistérios que cercam a dislexia”, afirma Wolf.

“Em inúmeros casos, a evolução do cérebro no que tange à leitura nunca atinge os níveis mais avançados, pois o tempo necessário para conectar as partes iniciais do processo é longo. Muitas crianças disléxicas simplesmente não possuem o tempo necessário para absorver informações escritas.”

Ao mesmo tempo, muitas pessoas com dislexia se destacam por sua criatividade e inteligência.

Há até conjecturas de que grandes mentes, como Leonardo da Vinci, Thomas Edison e Albert Einstein poderiam ter sido disléxicos.

Por exemplo, Da Vinci tinha dificuldades de leitura e frequentemente escrevia de forma invertida, com erros ortográficos e gramaticais.

“Embora a maioria das pessoas disléxicas não possua talentos excepcionais como os de Edison ou Da Vinci, existe um número considerável de portadores de dislexia que são inegavelmente talentosos”, observa Wolf.

Além disso, atualmente, existem muitas estratégias para auxiliar crianças com essa e outras dificuldades de leitura.

“O fundamental é ajudar as crianças a experimentar o que significa ter um espaço seguro para a leitura”, afirma Wolf à BBC News Brasil. “No início, as histórias são simples, mas com o tempo se tornam mais complexas, sempre enfatizando habilidades como dedução, empatia e pensamento crítico.”

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