É comum ouvir afirmações de que certas cidades—normalmente grandes metrópoles americanas surgidas nos últimos séculos—“não deveriam existir.” De fato, como observa o urbanista M. Nolan Gray em um recente artigo, “nenhuma cidade deveria existir.” Na vasta cronologia da história humana, a construção urbana é um fenômeno recente, e não surge a partir de um impulso puro. “Não deveria haver uma cidade em lugar algum. Elas existem porque nós as criamos.” Muitas vezes, essa criação ocorre em cenários inusitados: “Metade de Boston foi dragada do oceano. St. Louis existe apenas porque domamos o maior rio do continente. Garantir água potável para Filadélfia é uma proeza de engenharia comparável ao Aqueduto de Los Angeles.”
Fora dos Estados Unidos, encontramos circunstâncias semelhantes nas “maiores cidades já construídas”: Tóquio e São Petersburgo são exemplos de realizações de engenharia em uma escala comparável à observada na América. Cidades como Amsterdã e Cidade do México foram literalmente erguidas sobre a água. O vídeo da The Present Past, disponível no início deste texto, esclarece como o capital holandês conseguiu isso, assim como o vídeo OBF abaixo.
Os famosos canais de Amsterdã, uma de suas características mais marcantes, não foram concebidos apenas para embelezar a paisagem. Como ressalta Jochem Boodt, apresentador da The Present Past, sua construção era “uma questão de sobrevivência.” O solo pantanoso sob a cidade, ao longo do rio Amstel, era inadequado para cultivo ou habitação; foi preciso drenar essa área, que, após a drenagem, ficou vulnerável a inundações, exigindo a construção de diques e um represa.
O projeto de engenharia do século XIII para represar o Amstel não só protegeu a cidade, mas também inspirou seu nome. O Amstel, na verdade, é um grande canal, e a rápida expansão da comunidade ao redor demandou a escavação de mais canais auxiliares para facilitar o escoamento, formando ilhas onde novos bairros poderiam ser construídos (semelhante a Veneza, sobre dezenas de milhares de estacas cravadas no fundo do mar). O vídeo OBF ilustra como essa estrutura urbana peculiar influenciou as formas das casas na cidade, cujas fachadas são, em geral, estreitas, enquanto a profundidade reflete a riqueza das famílias residentes. Após quatro séculos desde que adquiriu sua configuração atual, e tendo sobrevivido a várias crises em decorrência de sua forma e situação singulares, o centro de Amsterdã é reconhecido como um exemplo de planejamento urbano, frequentemente imitado, mas sem a possibilidade de replicar as condições “impossíveis” que a tornaram única.
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